{"id":15433,"date":"2017-10-09T23:07:24","date_gmt":"2017-10-09T21:07:24","guid":{"rendered":"https:\/\/xoandelugo.org\/?p=15433\/"},"modified":"2017-10-09T23:07:24","modified_gmt":"2017-10-09T21:07:24","slug":"o-desastre-da-ciencia-economica-moderna-joao-pedro-bastos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/o-desastre-da-ciencia-economica-moderna-joao-pedro-bastos\/","title":{"rendered":"O DESASTRE DA CI\u00caNCIA ECON\u00d4MICA MODERNA. Jo\u00e3o Pedro Bastos"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"background-color: rgba(255,255,255,0);background-position: center center;background-repeat: no-repeat;border-width: 0px 0px 0px 0px;border-color:#e2e2e2;border-style:solid;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start\" style=\"max-width:calc( 1200px + 0px );margin-left: calc(-0px \/ 2 );margin-right: calc(-0px \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #428fc9;\">O DESASTRE DA CI\u00caNCIA ECON\u00d4MICA MODERNA<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-2\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #428fc9;\"><em>\u00a0 \u00a0 &#8211; Jo\u00e3o Pedro Bastos &#8211;\u00a0\u00a0<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #428fc9;\"><em> \u00a0<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;width:100%;\"><div class=\"fusion-separator-border sep-single sep-solid\" style=\"border-color:#ffe500;border-top-width:1px;\"><\/div><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-1 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-text fusion-text-3\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Desde Adam Smith, David Ricardo e Jean-Baptiste Say, a ci\u00eancia econ\u00f4mica nunca esteve em tamanha decad\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Por um lado, evolu\u00edmos muito no que diz respeito \u00e0s teorias sobre livre com\u00e9rcio, moeda, ciclos econ\u00f4micos, influ\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es, custos de transa\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise da Escolha P\u00fablica, e da an\u00e1lise econ\u00f4mica de outros setores como o Direito, a sa\u00fade, a corrup\u00e7\u00e3o, as drogas etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Por outro, a ci\u00eancia econ\u00f4mica vem entrando em decad\u00eancia ano ap\u00f3s ano \u2014 neste caso, por raz\u00f5es epistemol\u00f3gicas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Explico-me: heterodoxos<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a> (marxistas, desenvolvimentistas e p\u00f3s-keynesianos) causam inveja nos mais absurdos conspiracionistas ao criar explica\u00e7\u00f5es mirabolantes das quais surgem solu\u00e7\u00f5es mais mirabolantes ainda para seus problemas. Enquanto isso, os neocl\u00e1ssicos e keynesianos abusam do empirismo e de seus modelos matem\u00e1ticos complexos na \u00e2nsia de querer &#8220;mensurar&#8221; tudo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A economia parece ter virado um ramo da estat\u00edstica e da matem\u00e1tica, em vez de estas servirem apenas como instrumentais para certas aplica\u00e7\u00f5es da teoria econ\u00f4mica. O esquecimento do apriorismo, da Escola Austr\u00edaca, e de Lionel Robbins e sua obra Essay on the Nature and Significance of Economic Science (1932) representou um retrocesso sem fim em dire\u00e7\u00e3o ao cientificismo e ao positivismo mecanicista.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A ci\u00eancia econ\u00f4mica trata de fen\u00f4menos humanos, de rela\u00e7\u00f5es entre indiv\u00edduos, das escolhas da racionalidade humana em meio a recursos escassos, das implica\u00e7\u00f5es de tudo isso. Em suma: a ci\u00eancia econ\u00f4mica trata da a\u00e7\u00e3o humana. Infelizmente, no monop\u00f3lio do debate, todos est\u00e3o, de alguma forma, errados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Vemos intervencionistas e monetaristas digladiando-se sobre qual a taxa em que a oferta de moeda pode ser aumentada ou qual o n\u00edvel aceit\u00e1vel de d\u00e9ficit fiscal \u2014 enquanto provavelmente nunca chegar\u00e3o a uma resposta correta. Isso porque, na esmagadora maioria dos casos, ambos ortodoxos e heterodoxos t\u00eam uma metodologia errada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Heterodoxos falham por ancorarem-se nos mesmos erros dos economistas cl\u00e1ssicos, ao analisarem a economia em classes sociais e, muitas vezes \u2014 pasmem! \u2014, baseada no valor-trabalho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A ideia de que o valor \u00e9 objetivo e determinado pela quantidade de trabalho despendido na manufatura do produto, somada \u00e0 ideia de que cada classe social possui uma l\u00f3gica pr\u00f3pria (sendo imposs\u00edvel que um pobre e um rico pensem da mesma forma) e \u00e9 magicamente guiada a um mesmo rumo, inibe qualquer tentativa de avan\u00e7ar na an\u00e1lise das escolhas subjetivas dos consumidores e em teorias de trocas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 O polilogismo marxista acreditava que a forma de pensar de uma pessoa \u00e9 determinada pela classe a que ela pertence, de modo que cada classe social tem um mecanismo l\u00f3gico e racional espec\u00edfico (menos Marx e Engels, que seriam os \u00fanicos burgueses do mundo com a mesma estrutura l\u00f3gica dos prolet\u00e1rios).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Segundo a Escola Historicista Alem\u00e3, cada modo de produ\u00e7\u00e3o possui um contexto hist\u00f3rico-social \u00fanico. E somente a partir desse contexto \u00e9 que podem ser feitas as an\u00e1lises econ\u00f4micas adequadas. Portanto, cada modo de produ\u00e7\u00e3o teria suas pr\u00f3prias &#8220;leis&#8221; econ\u00f4micas, que seriam parcialmente verdadeiras, pois condi\u00e7\u00f5es poderiam mudar, sendo imposs\u00edvel criar leis econ\u00f4micas gerais e aplic\u00e1veis a todos os modos de produ\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 No caso capitalista, a teoria econ\u00f4mica liberal estaria errada porque representa os interesses burgueses para justificar a explora\u00e7\u00e3o do proletariado. Essa tentativa de relativizar as leis econ\u00f4micas era imprescind\u00edvel para a luta socialista, j\u00e1 que, caso fosse convincente, eliminaria as tentativas de refutar o socialismo em termos puramente econ\u00f4micos. S\u00f3 os verdadeiros prolet\u00e1rios, dotados da l\u00f3gica verdadeira, poderiam tecer seus &#8220;achismos&#8221; totalmente desprovidos de qualquer embasamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Entre os keynesianos, a an\u00e1lise da economia em agregados ignora o fato de que cada indiv\u00edduo tem um comportamento pr\u00f3prio. O ato de se estudar a economia como se ela fosse apenas uma grande massa homog\u00eanea e uniforme \u00e9 algo que, logo em seu ponto de partida, desconsidera o indiv\u00edduo e seus variados comportamentos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Baseando-se na m\u00e1xima de que h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre desemprego e infla\u00e7\u00e3o, Keynes forneceu a seus disc\u00edpulos um Trabalho de S\u00edsifo: a eterna busca por um &#8220;ponto \u00f3timo&#8221; fict\u00edcio, inexistente. Se o desemprego ficasse muito alto em decorr\u00eancia de um crescimento econ\u00f4mico lento, bastava que os seres iluminados respons\u00e1veis pela pol\u00edtica macroecon\u00f4mica realizassem uma simples medida: aumentar os gastos e a infla\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, aumentando a demanda agregada. J\u00e1 se o desemprego, por outro lado, ficasse muito baixo durante a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, levando a um &#8220;superaquecimento&#8221; da economia, bastava que o governo elevasse impostos e reduzisse os gastos, e o resto daria certo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Michael Kalecki, economista polon\u00eas, acreditava que o governo tamb\u00e9m deve financiar o pleno emprego, por meio de subs\u00eddios, manipula\u00e7\u00e3o da taxa de juros ou redistribui\u00e7\u00e3o de renda. Para tal justificar suas teorias, Kalecki pressup\u00f5e uma economia fechada, est\u00e1tica e sem governo, na qual o capital \u00e9 constante e os trabalhadores n\u00e3o poupam. J\u00e1 Keynes pressup\u00f5e que para a ocorr\u00eancia de certas causalidades que ele descreve, todas as outras vari\u00e1veis devem estar constantes \u2014 o famoso <em>ceteris paribus<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Qual a validade de teorias que n\u00e3o s\u00e3o realistas? Qual o sentido de aplicarmos teorias econ\u00f4micas que s\u00e3o feitas para uma economia que n\u00e3o existe? O problema disso \u00e9 que suas conclus\u00f5es a partir dessas hip\u00f3teses \u2014 as quais, para serem corretas, deveriam ter validade universal \u2014 s\u00f3 s\u00e3o v\u00e1lidas dentro de certos contextos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>\u00a0 A matem\u00e1tica na econom\u00eda.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Ainda assim, a matem\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 in\u00fatil na economia. (Nenhum economista que n\u00e3o acredita no uso da matem\u00e1tica nega que se Jo\u00e3o tem 10 reais e Pedro tem 20, juntos eles t\u00eam 30). O problema est\u00e1 no uso de artif\u00edcios cl\u00e1ssicos da f\u00edsica na economia, al\u00e9m da transposi\u00e7\u00e3o de ferramentas como o c\u00e1lculo integral, equa\u00e7\u00f5es diferenciais, e \u00e1lgebra linear, as quais, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podem nem mensurar e nem muito menos prever o comportamento humano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Apesar de ter superado a fal\u00e1cia do valor-trabalho, a Revolu\u00e7\u00e3o Marginalista e o valor-utilidade trouxeram consigo outro <em>impasse<\/em> na hist\u00f3ria do pensamento econ\u00f4mico, o qual persiste at\u00e9 hoje. A Revolu\u00e7\u00e3o Marginalista n\u00e3o foi apenas uma revolu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas tamb\u00e9m uma revolu\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica. Do m\u00e9todo l\u00f3gico, usados pelos cl\u00e1ssicos, partiu-se para o m\u00e9todo formal (a matem\u00e1tica sem n\u00fameros). Na \u00e9poca dos cl\u00e1ssicos, o texto metodol\u00f3gico mais utilizado era o de John Stuart Mill <em>Essays on Some Unsettled Questions of Political Economy<\/em> (1844), no qual Mill, apesar de um entusiasta do empirismo, defende que a economia necessita de um m\u00e9todo pr\u00f3prio, baseado na l\u00f3gica a priori. Mill defendia o apriorismo porque a Economia Pol\u00edtica (como era chamada \u00e0 \u00e9poca) era uma ci\u00eancia abstrata e complexa, na qual o uso da experi\u00eancia como m\u00e9todo probat\u00f3rio n\u00e3o era nem poss\u00edvel e nem adequado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Enquanto Jevons e Walras tentavam sistematicamente \u2014 e em falha \u2014 &#8220;mensurar&#8221; a utilidade de cada bem adicional, Menger e a Escola Austr\u00edaca se limitaram \u00e0 Teoria da Utilidade Marginal Decrescente como conhecemos atualmente: cada unidade adicional de um mesmo bem possui um valor \u00e0 margem \u2014 isto \u00e9, um valor adicional \u2014 menor. (Por exemplo, \u00e0 medida que acrescento camisas id\u00eanticas ao meu guarda-roupa, cada camisa extra em geral ter\u00e1 menos import\u00e2ncia para mim do que as mesmas camisas que comprei anteriormente).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Isso afeta diretamente as implica\u00e7\u00f5es que cada um e suas escolas seguiram.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Menger e os austr\u00edacos continuaram pelo m\u00e9todo aprior\u00edstico, em que as verdades s\u00e3o auto-evidentes, o que mais tarde Ludwig von Mises chamou de praxeologia, a ci\u00eancia da a\u00e7\u00e3o humana, sistematizando-a de forma brilhante. Walras, Jevons, e mais tarde Marshall, partiram para a matem\u00e1tica, para os gr\u00e1ficos e para suas hip\u00f3teses. A partir destes, passou-se a seguir modelos matem\u00e1ticos, ainda que n\u00e3o emp\u00edricos, sendo T<em>he Scope and Method of Political Economy<\/em> (1890), de John Neville Keynes, pai de John Maynard Keynes, o mais influente na \u00e9poca.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 \u00c9 exatamente desse ponto que nasce o maior problema da ci\u00eancia econ\u00f4mica moderna: o empirismo. Curiosamente, os economistas neocl\u00e1ssicos, muitas vezes ditos liberais, empacam nos mesmos problemas de econometristas comunistas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Na URSS, os econometristas utilizavam fun\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o para estimar curvas de custo, dizendo \u00e0s empresas estatais para minimizarem esses custos, como se as fun\u00e7\u00f5es fossem exatas e correspondessem a supostas caracter\u00edsticas globais imut\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Em fen\u00f4menos complexos, como os fen\u00f4menos econ\u00f4micos, n\u00e3o h\u00e1 constantes. Nesse sentido, n\u00e3o se pode, portanto, utilizar o modelo epistemol\u00f3gico das ci\u00eancias naturais (ou ci\u00eancias f\u00edsicas, como Hayek chamava). O m\u00e9todo emp\u00edrico, no qual se formulam hip\u00f3teses, essas hip\u00f3teses s\u00e3o testadas e repetidas v\u00e1rias vezes com todas as &#8220;vari\u00e1veis&#8221; constantes at\u00e9 chegar-se a uma verdade. Esse modelo n\u00e3o pode ser aplicado na economia pelo simples fato de que, no ramo da a\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o existem rela\u00e7\u00f5es constantes, como disse Ludwig von Mises. Ainda que houvesse constantes, n\u00e3o saber\u00edamos identificar uma infinidade de fatores que influenciam cada a\u00e7\u00e3o humana. E mesmo que consegu\u00edssemos identificar, n\u00e3o conseguir\u00edamos mensurar e a valorar todos esses fatores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Corroborando cr\u00edtica \u00e0 <em>Teoria Geral<\/em> de Keynes, Hayek afirma que se passou a dar valor a essa teoria porque, ao se test\u00e1-la quantitativamente, ela se mostrava relativamente correta. Disse Hayek em seu discurso ao ganhar o Pr\u00eamio de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas em Mem\u00f3ria a Alfred Nobel, em 11 de dezembro de 1974:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">A correla\u00e7\u00e3o entre demanda agregada e n\u00edvel de emprego, por exemplo, pode apenas ser aproximada; por\u00e9m, como \u00e9 a \u00fanica sobre a qual h\u00e1 dados quantitativos, passa a ser aceita como o \u00fanico v\u00ednculo causal que importa. O que temos a\u00ed \u00e9 uma \u00f3tima evid\u00eancia &#8220;cient\u00edfica&#8221; para uma teoria falsa. E ela \u00e9 aceita porque parece ser mais &#8220;cient\u00edfica&#8221; do que uma teoria que, embora apresente uma explica\u00e7\u00e3o v\u00e1lida, \u00e9 rejeitada apenas porque n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias suficientemente quantitativas para embas\u00e1-la.<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Por isso, a despeito de estar fundamentalmente errada, acredita-se que seja correta, pois \u00e9, at\u00e9 o momento, a \u00fanica que permite uma constata\u00e7\u00e3o quantitativa \u2014 o que, segundo Hayek, n\u00e3o a torna mais verdadeira. Ainda que se tenha adquirido essa vis\u00e3o &#8220;cientificista&#8221; ao alegar que a mensura\u00e7\u00e3o quantitativa seja mais correta, evid\u00eancias de correla\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem refutar algo que uma boa teoria mostre haver causalidade l\u00f3gica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>\u00a0 As ci\u00eancias econ\u00f4micas hoje.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 O m\u00e9todo cient\u00edfico moderno separou, erroneamente, as ci\u00eancias em duas: as ci\u00eancias naturais, verdadeiras e emp\u00edricas; e as ci\u00eancias humanas, que seriam pseudoci\u00eancias, falsas e baseadas em &#8220;achismos&#8221;. Ainda que tenham raz\u00e3o nas duras cr\u00edticas \u00e0s ci\u00eancias humanas, muitas vezes utilizadas como palco para maluquices \u2014 j\u00e1 que, teoricamente, voc\u00ea n\u00e3o precisa de, e nem tem como, provar empiricamente muitas das descobertas \u2014, negar que a ci\u00eancia econ\u00f4mica seja totalmente verdadeira em sua l\u00f3gica dedutiva aprior\u00edstica, para com isso estimular a ades\u00e3o de economistas \u00e0 matem\u00e1tica para tornar seu trabalho prestigiado como &#8220;ci\u00eancia de verdade&#8221;, \u00e9 uma postura totalmente equivocada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Esse \u00e9 o &#8220;cientificismo&#8221; criticado por Hayek: acreditar que uma teoria \u00e9 mais correta s\u00f3 porque utiliza o m\u00e9todo emp\u00edrico n\u00e3o faz sentido, uma vez que o m\u00e9todo emp\u00edrico n\u00e3o \u00e9 o correto para a economia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Na introdu\u00e7\u00e3o de qualquer livro-texto de Microeconomia voc\u00ea muito provavelmente encontrar\u00e1 um aviso de que os modelos apresentados n\u00e3o s\u00e3o quantitativos, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel utilizar n\u00fameros ordinais, e que tais modelos n\u00e3o podem ser usados para implicar rela\u00e7\u00f5es interpessoais de, por exemplo, utilidade. Nos cap\u00edtulos seguintes, voc\u00ea ver\u00e1 o autor utilizando uma Curva de Indiferen\u00e7a para determinar que uma certa quantidade do bem A \u00e9 equivalente a uma certa quantidade do bem B, ignorando que consumidores t\u00eam uma escala de prefer\u00eancia subjetiva, intrapessoal e temporal, imposs\u00edvel de ser mensurada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Ver\u00e1 tamb\u00e9m o autor dizendo que um aumento X no pre\u00e7o far\u00e1 com que a demanda diminua Y, dependendo de sua elasticidade Z. O grande problema \u00e9 que nada disso \u00e9 est\u00e1tico \u2014 e, portanto, nada disso pode ser tomado como verdade. Pre\u00e7os, por exemplo, s\u00e3o influenciados por uma quantidade imensur\u00e1vel de vari\u00e1veis tamb\u00e9m imensur\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A estat\u00edstica, outra ferramenta neocl\u00e1ssica, falha da mesma forma. A estat\u00edstica pode nos dizer coisas incr\u00edveis sobre o passado, pode at\u00e9 nos dar certa habilidade preditiva em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, mas correla\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas n\u00e3o podem ser usadas como leis universalmente v\u00e1lidas para ditar o que ir\u00e1 acontecer no futuro \u2014 no m\u00e1ximo, o que provavelmente pode acontecer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Milton Friedman responde, em seu livro <em>Essays in Positive Economics<\/em> (1953), que o essencial \u00e9 que os modelos matem\u00e1ticos tenham uma previsibilidade correta, ainda que n\u00e3o sejam inteiramente verdadeiros em suas hip\u00f3teses iniciais. Friedman come\u00e7a dividindo a economia em economia positiva e economia normativa, defendendo a primeira. Para ele, a economia deveria julgar, por exemplo, pol\u00edticas p\u00fablicas pelo que elas s\u00e3o e n\u00e3o pelo que elas deveriam ser. Ainda assim, novamente, seus modelos n\u00e3o conseguem julgar eficientemente e com certeza o que vai acontecer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A economia positiva difere da normativa simplesmente na medida em que simples julgamentos de valor sem nenhum embasamento passam a ser analisados com correla\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas. A economia normativa diz, diferentemente da economia positiva, o que provavelmente vai acontecer, e n\u00e3o o que vai acontecer. O \u00fanico m\u00e9todo poss\u00edvel para dizer o que vai acontecer \u00e9 o l\u00f3gico aprior\u00edstico, mas somente quando delimitado ao seu escopo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>\u00a0 Conclus\u00e3o.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A tomada da ci\u00eancia econ\u00f4mica como emp\u00edrica \u00e9 prejudicial n\u00e3o apenas para a ci\u00eancia em si, mas tamb\u00e9m para toda a humanidade. O formalismo te\u00f3rico faz com que se perca a no\u00e7\u00e3o da complexidade da teoria econ\u00f4mica e dos mercados. Sem a complexidade, acaba-se por acreditar que estes podem ser controlados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Acreditar que a economia \u00e9 empirista resulta em seguidas tentativas de se aplicar as mesmas e fracassadas pol\u00edticas governamentais que j\u00e1 foram refutadas pela teoria. Pior ainda: resulta em seguidas tentativas de se aplicar variadas vers\u00f5es do socialismo, na esperan\u00e7a de que, um dia, alguma delas dar\u00e1 certo \u00e0 medida que as vari\u00e1veis corretas forem controladas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Os economistas passaram de defensores da liberdade a auxiliares do despotismo. Nesse meio tempo, quem paga a conta somos n\u00f3s, humanos, meros n\u00fameros nas equa\u00e7\u00f5es neocl\u00e1ssicas, nos agregados keynesianos e nas ditaduras comunistas.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-2 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;width:100%;\"><div class=\"fusion-separator-border sep-double sep-solid\" style=\"border-color:#ffeb3b;border-top-width:1px;border-bottom-width:1px;\"><\/div><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-4\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\"><strong>Bibliografia.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">BARBIERI, Fabio. Formalismo Te\u00f3rico, Complexidade e Amea\u00e7as \u00e0 Liberdade. 4a Confer\u00eancia de Escola Austr\u00edaca, S\u00e3o Paulo, 2014. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qkDJEDQhd2I\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qkDJEDQhd2I<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">FRIEDMAN, Milton. Essays in Positive Economics. 1a Ed. Chicago: University of Chicago Press, 1953.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">HAYEK, Friedrich August. The Counter-Revolution of Science. 1a. Ed. Glencoe: The Free Press, 1952.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">MISES, Ludwig von. A\u00e7\u00e3o Humana. 3.1a Ed. S\u00e3o Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">MISES, Ludwig von. Epistemological Problems of Economics. 3. Ed. Indianapolis: Liberty Fund, 2013.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\">MISES, Ludwig von. Theory and History. 2. Ed. Auburn: Ludwig von Mises Institute, 2007.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #999999;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Teoricamente, a Escola Austr\u00edaca deveria ser considerada heterodoxa, pois n\u00e3o participa, atualmente, do mainstream econ\u00f4mico e tem suas ideias como &#8220;controversas&#8221; e\/ou &#8220;radicais&#8221; aos olhos deste. No entanto, neste artigo, convencionarei heterodoxos como marxistas, desenvolvimentistas e keynesianos, e ortodoxos como neocl\u00e1ssicos, para melhor compreens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-flex-container.fusion-builder-row-1{ padding-top : 0px;margin-top : 0px;padding-right : 0px;padding-bottom : 0px;margin-bottom : 0px;padding-left : 0px;}<\/style><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-15433","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-cy"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15433"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15433\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15435,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15433\/revisions\/15435"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}