{"id":15326,"date":"2017-09-13T23:55:08","date_gmt":"2017-09-13T21:55:08","guid":{"rendered":"https:\/\/xoandelugo.org\/?p=15326\/"},"modified":"2017-09-14T00:10:56","modified_gmt":"2017-09-13T22:10:56","slug":"leis-e-justica-numa-sociedade-libertaria-tiago-rinck-caveden","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/leis-e-justica-numa-sociedade-libertaria-tiago-rinck-caveden\/","title":{"rendered":"LEIS E JUSTI\u00c7A NUMA SOCIEDADE LIBERT\u00c1RIA &#8211; Tiago Rinck Caveden"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"background-color: rgba(255,255,255,0);background-position: center center;background-repeat: no-repeat;border-width: 0px 0px 0px 0px;border-color:#e2e2e2;border-style:solid;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start\" style=\"max-width:calc( 1200px + 0px );margin-left: calc(-0px \/ 2 );margin-right: calc(-0px \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #428fc9;\">LEIS E JUSTI\u00c7A NUMA SOCIEDADE LIBERT\u00c1RIA<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-2\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #428fc9;\"><em>\u00a0 \u00a0 &#8211; Tiago Rinck Caveden &#8211; \u00a0\u00a0<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #428fc9;\"><em>\u00a0<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;width:100%;\"><div class=\"fusion-separator-border sep-single sep-solid\" style=\"border-color:#ffe500;border-top-width:1px;\"><\/div><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-1 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-text fusion-text-3\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Muito freq\u00fcentemente vemos pessoas que aceitam os princ\u00edpios liberais\/libert\u00e1rios, reconhecendo neles uma elevada superioridade \u00e9tica e econ\u00f4mica, n\u00e3o conseguirem conceber como leis e o servi\u00e7o de justi\u00e7a poderiam existir sem violar tais princ\u00edpios. Estamos t\u00e3o acostumados a leis impostas por um monop\u00f3lio coercivo, que torna-se realmente dif\u00edcil imaginar como elas poderiam existir, e principalmente, serem respeitadas, numa sociedade livre de coer\u00e7\u00e3o institucional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Esse texto tem como prop\u00f3sito demonstrar que leis e justi\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 podem existir, como j\u00e1 existiram sem que alguma coer\u00e7\u00e3o precisasse ser iniciada para imp\u00f4-las. Come\u00e7arei citando exemplos hist\u00f3ricos de sociedades que tinham leis e justi\u00e7a n\u00e3o coercivas, explicando resumidamente como funcionavam, e em seguida detalharei como esse sistema n\u00e3o s\u00f3 poderia ser aplicado nas sociedades modernas, como tamb\u00e9m seria mais eficiente na elabora\u00e7\u00e3o de leis do que o monop\u00f3lio estatal que temos hoje.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Irlanda e Isl\u00e2ndia medievais.<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Tanto Isl\u00e2ndia quanto Irlanda passaram s\u00e9culos sob um sistema de Common Law onde as leis e julgamentos n\u00e3o eram impostos coercitivamente, mas ainda assim, eram majoritariamente respeitados. Descreverei rapidamente cada um dos casos. Para maiores informa\u00e7\u00f5es, favor seguir os links no final do texto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">A Isl\u00e2ndia come\u00e7ou a ser ocupada no final do s\u00e9culo IX. Algumas d\u00e9cadas mais tarde, j\u00e1 no come\u00e7o do s\u00e9culo X, seus habitantes criaram o Althing, algo que pode ser comparado a um parlamento, composto por um n\u00famero limitado de indiv\u00edduos chamados chieftans. Esse &#8220;parlamento&#8221; n\u00e3o tinha or\u00e7amento ou empregados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Normalmente se reuniam apenas duas semanas por ano. Seus membros n\u00e3o s\u00f3 escreviam as leis, como tamb\u00e9m atuavam como advogados e representantes de seus clientes. \u00c9 isso mesmo, os chieftans tinham clientes, n\u00e3o eleitores. Um cliente insatisfeito poderia mudar de chieftan, assim como hoje podemos trocar de advogado. Um chieftan sem clientes perderia n\u00e3o s\u00f3 sua remunera\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m sua influ\u00eancia. Outro detalhe interessante \u00e9 que o posto de chieftan em si poderia ser vendido a qualquer momento. Embora tal posi\u00e7\u00e3o naturalmente atra\u00edsse os mais ricos membros da sociedade, o poder de um chieftan era controlado pelo risco de perder todos os seus clientes para um outro chieftan.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">No caso de disputa entre indiv\u00edduos, o acusador intimava o r\u00e9u a um julgamento, para o qual cada uma das partes deveria escolher 18 ju\u00edzes. Nesse primeiro momento, ao menos 30 ju\u00edzes deveriam votar em un\u00edssono. Se mais do que 6 ju\u00edzes votassem em desacordo \u00e0 maioria, o caso iria para um julgamento mais complexo, no qual os chieftans representantes de cada parte escolhiam os ju\u00edzes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Importante observar que ambas as partes concordavam formalmente em acatar o resultado final do julgamento. Havia portanto um contrato, que legitimaria, do ponto de vista da \u00e9tica libert\u00e1ria, um eventual uso de for\u00e7a para garantir o cumprimento da decis\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">E o que aconteceria se o acusado n\u00e3o aceitasse ir a julgamento? No lugar de se utilizar de coer\u00e7\u00e3o para obrigar o acusado a responder judicialmente, o acusador tinha como op\u00e7\u00e3o requisitar aos chieftans que elegessem um corpo de ju\u00edzes que poderia decidir por rotular o acusado como &#8220;fora-da-lei&#8221;. A consequ\u00eancia imediata de ser tachado de fora-da-lei era a perda completa da prote\u00e7\u00e3o legal. Se o indiv\u00edduo n\u00e3o quer colaborar com o sistema legal, esse mesmo sistema n\u00e3o \u00e9 obrigado a proteg\u00ea-lo de nenhuma agress\u00e3o que ele venha a sofrer. Al\u00e9m disso, esse indiv\u00edduo teria s\u00e9rias dificuldades em manter rela\u00e7\u00f5es sociais &#8211; a ningu\u00e9m agrada a id\u00e9ia de interagir com pessoas que n\u00e3o aceitam responder judicialmente por seus atos. O poder persuasivo dessa amea\u00e7a de ostracismo era enorme, prova disso \u00e9 o fato da Isl\u00e2ndia ter passado quase tr\u00eas s\u00e9culos sob esse regime.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">O exemplo irland\u00eas \u00e9 ainda mais interessante, at\u00e9 porque durou muito mais. Por praticamente um mil\u00eanio a sociedade irlandesa viveu livre de um sistema monopolizado de leis e justi\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">A Irlanda medieval era organizada em t\u00faatha (plural de t\u00faath), organiza\u00e7\u00f5es de origem principalmente religiosa que tinham alguns aspectos semelhantes aos de um clube: um indiv\u00edduo poderia sair de uma t\u00faath e partir para outra com relativa facilidade. As pr\u00f3prias t\u00faatha podiam se fundir ou se fragmentar em diferentes t\u00faatha. Essas t\u00faatha eram regidas por reis. Esses &#8220;reis&#8221;, entretanto, n\u00e3o tinham o poder de taxar seus s\u00faditos \u00e0 vontade, tampouco podiam elaborar leis. Eles serviam como l\u00edderes espirituais e militares, em caso de guerra. A elabora\u00e7\u00e3o das leis se dava principalmente pelas decis\u00f5es de juristas profissionais, chamados brehons. As leis eram baseadas principalmente em tradi\u00e7\u00f5es e costumes, assim como na religi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Disputas judiciais eram resolvidas de maneira semelhante \u00e0s da Isl\u00e2ndia. Acusador e acusado entravam em acordo sobre quem seria o juiz de sua disputa. Se o acusado n\u00e3o aceitasse ser julgado ou n\u00e3o aceitasse as proposi\u00e7\u00f5es de ju\u00edzes do acusador, ele corria o risco de ser rotulado como um fora-da-lei. O sistema de ostracismo irland\u00eas era um complexo esquema baseado em contratos chamados sureties, os quais n\u00e3o pretendo detalhar. Apenas confirmo que eram contratos volunt\u00e1rios que traziam reputa\u00e7\u00e3o ao indiv\u00edduo quando respeitados, e poderiam levar ao ostracismo e expuls\u00e3o da t\u00faath em caso de desrespeito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Esse sistema irland\u00eas durou at\u00e9 a invas\u00e3o inglesa. Em outras palavras, durou at\u00e9 que foi violentamente substitu\u00eddo por um Estado estrangeiro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">O que provavelmente permitiu ao sistema irland\u00eas durar muito mais do que o island\u00eas foi a sua maior flexibilidade. Qualquer indiv\u00edduo poderia ser um brehon, e o n\u00famero de t\u00faatha tamb\u00e9m era vari\u00e1vel. No sistema island\u00eas, o n\u00famero de chieftans era limitado, o que garantia um certo oligop\u00f3lio a esses chieftans.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Ambos os sistemas tinham importantes detalhes em comum. Primeiramente, n\u00e3o existiam crimes sem v\u00edtimas. Todo julgamento era resultado de uma disputa entre indiv\u00edduos. N\u00e3o existiam pris\u00f5es, toda puni\u00e7\u00e3o se baseava em ressarcimento e indeniza\u00e7\u00e3o. As leis eram derivadas das tradi\u00e7\u00f5es e costumes. E, sem d\u00favida, o elemento mais importante: o que garantia o respeito \u00e0s leis n\u00e3o era uma amea\u00e7a de uso da for\u00e7a (coer\u00e7\u00e3o), e sim a amea\u00e7a de ser completamente ignorado pela sociedade e, principalmente, por todo o corpo jur\u00eddico que protegia os indiv\u00edduos de agress\u00f5es de terceiros. Perceba que isso n\u00e3o \u00e9 uma inicia\u00e7\u00e3o de coer\u00e7\u00e3o. Rotular e deixar de proteger algu\u00e9m n\u00e3o viola de forma alguma a \u00e9tica libert\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Nota importante: nenhum desses dois pa\u00edses poderia ser considerado uma verdadeira sociedade libert\u00e1ria, ou sequer algo pr\u00f3ximo. Embora o modelo de leis e justi\u00e7a adotado por essas sociedades n\u00e3o fosse baseado num monop\u00f3lio coercivo, n\u00e3o podemos esquecer que estamos falando de sociedades medievais. Atrocidades como escravid\u00e3o e servid\u00e3o eram comuns \u00e0 \u00e9poca. Muitos indiv\u00edduos sequer tinham acesso aos sistemas jur\u00eddicos descritos acima. Resumindo, havia muitas injusti\u00e7as nessas sociedades, assim como em qualquer sociedade medieval, mas ainda assim elas servem como exemplos hist\u00f3ricos de que leis n\u00e3o dependem de coer\u00e7\u00e3o para serem aplic\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Como isso poderia funcionar atualmente?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Uma sociedade capitalista depende fortemente de contratos. Numa sociedade libert\u00e1ria, onde leis n\u00e3o seriam impostas e a propriedade privada fosse respeitada, contratos seriam ainda mais frequentes e importantes. Esses contratos teriam um papel fundamental na organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. Contratos de trabalho, de casamento, de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os dos mais variados, e mesmo entre moradores e seus condom\u00ednios &#8211; entidades que seriam muito presentes em tal sociedade, j\u00e1 que constituem uma forma eficiente de se prover servi\u00e7os de rede, tais como redes de transporte, \u00e1gua, esgoto, eletricidade etc. -, todos esses variados contratos por si s\u00f3s j\u00e1 seriam uma forma de lei volunt\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Para que um contrato formal tenha credibilidade, i.e., para que seja mais do que apenas um peda\u00e7o de papel ou bits num computador, \u00e9 necess\u00e1rio que ao menos uma institui\u00e7\u00e3o jur\u00eddica reconhe\u00e7a esse contrato. Essa institui\u00e7\u00e3o &#8211; ou essas institui\u00e7\u00f5es &#8211; pode se responsabilizar pela resolu\u00e7\u00e3o de eventuais disputas entre signat\u00e1rios de seus contratos, aplicando suas pr\u00f3prias leis. De um ponto de vista \u00e9tico, tais institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m poderiam se utilizar de coer\u00e7\u00e3o para fazer valer o contrato. Quem inicia a atitude criminosa \u00e9 aquele que desrespeita um contrato estabelecido, e n\u00e3o aquele que garante tal respeito utilizando o m\u00ednimo de for\u00e7a necess\u00e1rio para tal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Poder\u00edamos ter institui\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a com o \u00fanico prop\u00f3sito de estabelecer leis a seus signat\u00e1rios, sem necessariamente arbitrar acordos entre eles. Indiv\u00edduos ou institui\u00e7\u00f5es poderiam exigir daqueles desejosos de interagir com eles o respeito a uma s\u00e9rie de normas e leis. Para tal, eles teriam que se submeter voluntariamente a alguma institui\u00e7\u00e3o aceita como uma defensora dessas leis em particular. Isso certamente variaria muito, indo desde exig\u00eancias do cumprimento de leis altamente restritivas (religiosos radicais, por exemplo) at\u00e9 exig\u00eancias mais cotidianas, como por exemplo um empregador que exige de seus empregados a submiss\u00e3o a certas leis m\u00ednimas as quais ele considera essenciais para o exerc\u00edcio do servi\u00e7o que ele contrata. Na aus\u00eancia de um monop\u00f3lio legislativo, as pessoas exigiriam garantias para praticamente tudo o que viessem a fazer, muito mais do que fazem hoje.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Mas, e os crimes que n\u00e3o estivessem regidos por absolutamente nenhum contrato? Como seriam tratados, j\u00e1 que n\u00e3o podemos iniciar coer\u00e7\u00e3o contra ningu\u00e9m?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Antes de qualquer coisa, \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar que tais eventos seriam muito raros. N\u00e3o apenas porque a pr\u00e1tica criminosa seria muito menos incentivada pelo contexto de livre mercado de tal sociedade, mas tamb\u00e9m porque seria muito dif\u00edcil encontrar indiv\u00edduos adultos que nunca se submeteram voluntariamente a nenhuma legisla\u00e7\u00e3o. Lembre-se, contratos seriam demandados o tempo todo, e pessoas n\u00e3o submissas a nenhum corpo jur\u00eddico n\u00e3o teriam muita credibilidade para assinar qualquer contrato de import\u00e2ncia, como acontecia na Irlanda com as sureties. Um indiv\u00edduo n\u00e3o submisso a nenhum corpo de leis teria dificuldades para ter um emprego, para morar em qualquer condom\u00ednio, para ter uma conta banc\u00e1ria, para prestar qualquer servi\u00e7o mais elaborado, enfim, teria que ser praticamente algu\u00e9m auto-suficiente, isolado da sociedade. Se isso j\u00e1 era indesej\u00e1vel em tempos medievais, \u00e9poca em que a sociedade era bem menos intraligada, hoje seria uma tarefa extremamente ingrata.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Mas, pelo bem da argumenta\u00e7\u00e3o, vamos imaginar o que aconteceria no advento de um crime cometido por algu\u00e9m n\u00e3o submisso a nenhum conjunto legal. A v\u00edtima desse suposto criminoso poderia intim\u00e1-lo a julgamento. Na situa\u00e7\u00e3o ideal, v\u00edtima e acusado entram em acordo sobre quem ser\u00e1 o \u00e1rbitro da disputa, e pronto, temos novamente um contrato em jogo. Mas, e se n\u00e3o houver acordo? Nesse caso, como acontecia nos exemplos medievais, o acusador teria a oportunidade de demandar a rotula\u00e7\u00e3o do criminoso como &#8220;fora-da-lei&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Os detalhes de como tal sistema de ostracismo funcionaria &#8211; como, por exemplo, quantas proposi\u00e7\u00f5es diferentes de ju\u00edzes o acusado poderia recusar at\u00e9 ser tachado como fora-da-lei, entre outros crit\u00e9rios mais espec\u00edficos &#8211; n\u00e3o podem e n\u00e3o precisam ser previstos. Poderiam at\u00e9 existir m\u00faltiplos sistemas de ostracismo, com crit\u00e9rios diferentes. Algu\u00e9m rotulado por um sistema muito estrito, do tipo que considera muito facilmente algu\u00e9m como fora-da-lei, teria menos dificuldades para continuar vivendo em sociedade do que algu\u00e9m rotulado por um sistema mais permissivo, que d\u00e1 v\u00e1rias chances a um criminoso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">O que \u00e9 importante notar \u00e9 que, n\u00e3o s\u00f3 esse fora-da-lei teria dificuldades para se relacionar com outras pessoas, como perderia a prote\u00e7\u00e3o de todos os \u00f3rg\u00e3os de justi\u00e7a, uma vez que \u00e9 do interesse dessas institui\u00e7\u00f5es que as pessoas aceitem ser julgadas. O indiv\u00edduo fora-da-lei estaria relegado \u00e0 pr\u00f3pria sorte, podendo ser v\u00edtima de justiceiros violentos sem contar com o apoio de nenhuma institui\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o. Novamente, se o poder persuasivo de tal ostracismo era forte em sociedades medievais, imagine hoje, com a alt\u00edssima divis\u00e3o de trabalho e interdepend\u00eancia que temos, sem contar com todas as tecnologias que permitem facilmente identificar a presen\u00e7a ou n\u00e3o de r\u00f3tulos associados a indiv\u00edduos (pense no sistema de prote\u00e7\u00e3o ao cr\u00e9dito). O \u00f4nus de ser tachado como fora-da-lei seria na esmagadora maioria dos casos pior do que qualquer condena\u00e7\u00e3o que ele pudesse vir a sofrer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Por que defender tal sistema?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Caso a aus\u00eancia de coer\u00e7\u00e3o institucional n\u00e3o seja por si s\u00f3 um apelo suficiente para convencer o leitor, h\u00e1 nesse esquema uma outra vantagem enorme em rela\u00e7\u00e3o a um monop\u00f3lio legislativo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">As leis em tal sistema n\u00e3o mais seriam a manifesta\u00e7\u00e3o dos devaneios de um conjunto de burocratas munidos de poder autorit\u00e1rio. Elas seriam o fruto da evolu\u00e7\u00e3o natural, via processo de mercado, das tradi\u00e7\u00f5es, costumes e regras de conduta j\u00e1 existentes na sociedade. Leis n\u00e3o seriam mais inventadas, e sim &#8220;descobertas&#8221;. Institui\u00e7\u00f5es que tentassem inventar leis sem apelo \u00e0 sociedade n\u00e3o iriam muito longe.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Nesse contexto, existir\u00e1 sempre uma alt\u00edssima diversidade de leis, para servir aos mais variados gostos &#8211; como todo tipo de servi\u00e7o num sistema genuinamente capitalista. Mas haver\u00e1 sempre um conjunto m\u00ednimo de leis defendido por toda institui\u00e7\u00e3o jur\u00eddica. Seriam as leis mais fundamentais do comportamento humano, princ\u00edpios \u00e9ticos b\u00e1sicos como &#8220;\u00e9 errado matar, roubar, estuprar&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Uma institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o condenasse atrocidades como essas dificilmente se manteria no mercado. Esse corpo m\u00ednimo de leis avan\u00e7aria da maneira mais r\u00e1pida poss\u00edvel para o que se entende por Direito Natural, j\u00e1 que, como tudo num livre mercado, ele evoluiria segundo o ju\u00edzo de valor subjetivo da sociedade como um todo, e n\u00e3o segundo interesses eleitoreiros de uma casta de governantes. A legisla\u00e7\u00e3o evoluiria de maneira semelhante \u00e0 pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o natural ou a outros sistemas de ordem espont\u00e2nea.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">Ao mesmo tempo, esse sistema traria solu\u00e7\u00f5es completamente volunt\u00e1rias \u00e0s v\u00e1rias quest\u00f5es debatidas calorosamente em grupos de discuss\u00e3o libert\u00e1rios, como, por exemplo, deve ou n\u00e3o deve existir a propriedade intelectual? Cal\u00fania e mentira de maneira mais gen\u00e9rica devem ser criminalizadas? Manifesta\u00e7\u00f5es da liberdade de express\u00e3o que influenciem diretamente crimes violentos s\u00e3o algo a ser condenado? Qual \u00e9 exatamente a puni\u00e7\u00e3o ideal para cada crime? Deve existir pena de morte? Existe uma obriga\u00e7\u00e3o positiva dos pais para com seus filhos? E para com um feto &#8211; abort\u00e1-lo ou &#8220;trat\u00e1-lo mal&#8221;, seria um crime? O que exatamente \u00e9 uma agress\u00e3o? Seria a circuncis\u00e3o um ato de agress\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a? O princ\u00edpio lockeano de apropria\u00e7\u00e3o original seria o ideal a se aplicar a absolutamente todos os casos? Como algu\u00e9m se apropriaria de uma reserva ecol\u00f3gica, cujo objetivo \u00e9 justamente preservar parte da natureza intocada, seguindo estritamente esse crit\u00e9rio? Normalmente concordamos que externalidades negativas s\u00e3o uma viola\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 propriedade, mas ser\u00e1 que todas elas merecem ressarcimento? \u00c9 praticamente consenso, por exemplo, que coisas como polui\u00e7\u00e3o ou barulho s\u00e3o externalidades negativas dignas de uma eventual resposta coerciva, mas e atitudes como construir um pr\u00e9dio que bloqueia a luz solar que antes atingia uma resid\u00eancia vizinha? Isso deve ser condenado? E se a resid\u00eancia produzisse energia el\u00e9trica a partir dessa luz solar, o veredicto muda? H\u00e1 toda uma s\u00e9rie de quest\u00f5es para as quais n\u00e3o podemos pensar que temos a resposta perfeita na ponta da l\u00edngua, at\u00e9 porque envolvem necessariamente arbitrariedades. Maioridade, por exemplo. Qual a idade ideal? Hoje essas arbitrariedades s\u00e3o todas decididas por burocratas sem nenhum crit\u00e9rio de performance. No arranjo proposto, as institui\u00e7\u00f5es que agregarem mais valor \u00e0 sociedade ser\u00e3o as maiores recompensadas, pois teriam mais clientes. Todas essas perguntas seriam respondidas pelo processo de competi\u00e7\u00e3o entre institui\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">E finalmente, caso o leitor ainda considere que n\u00e3o deve defender tal coisa pelo fato de ser &#8220;ut\u00f3pica demais&#8221;, extremamente distante da nossa realidade contempor\u00e2nea, reproduzo aqui a argumenta\u00e7\u00e3o de Stephan Kinsella para avisar ao leitor que ele provavelmente j\u00e1 defende algumas utopias &#8211; apenas n\u00e3o se deu conta disso. N\u00e3o acredita? Tente ent\u00e3o imaginar um mundo sem assassinatos. Ningu\u00e9m jamais mata ningu\u00e9m, ao menos n\u00e3o intencionalmente. Dada a natureza humana, podemos afirmar que tal coisa provavelmente nunca existir\u00e1. \u00c9 at\u00e9 mais ut\u00f3pico do que um sistema de leis n\u00e3o coercivo, coisa que j\u00e1 existiu de uma certa forma no passado. Por\u00e9m, ainda assim, voc\u00ea provavelmente n\u00e3o defende a pr\u00e1tica do assassinato, tampouco prega um &#8220;n\u00edvel m\u00ednimo de assassinatos&#8221; para que a sociedade continue funcionando. Sendo esse o caso, voc\u00ea j\u00e1 defende uma utopia ainda mais improv\u00e1vel do que a proposta desse texto. Um mundo sem assassinatos \u00e9 ainda mais radical do que um mundo sem institui\u00e7\u00f5es coercivas de porte suficiente para monopolizar as leis de uma regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-2 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;width:100%;\"><div class=\"fusion-separator-border sep-double sep-solid\" style=\"border-color:#ffeb3b;border-top-width:1px;border-bottom-width:1px;\"><\/div><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-4\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><p><span style=\"color: #999999;\">Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre Irlanda e Isl\u00e2ndia medievais, consultar:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><a style=\"color: #999999;\" href=\"http:\/\/www.daviddfriedman.com\/Academic\/Iceland\/Iceland.html\">http:\/\/www.daviddfriedman.com\/Academic\/Iceland\/Iceland.html<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><a style=\"color: #999999;\" href=\"http:\/\/www.lewrockwell.com\/orig3\/long1.html\">http:\/\/www.lewrockwell.com\/orig3\/long1.html<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><a style=\"color: #999999;\" href=\"http:\/\/mises.org\/journals\/lf\/1971\/1971_04.pdf\">http:\/\/mises.org\/journals\/lf\/1971\/1971_04.pdf<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><a style=\"color: #999999;\" href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=o0TBE-pcEi0\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=o0TBE-pcEi0<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-flex-container.fusion-builder-row-1{ padding-top : 0px;margin-top : 0px;padding-right : 0px;padding-bottom : 0px;margin-bottom : 0px;padding-left : 0px;}<\/style><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-15326","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-cy"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15326"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15326\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15327,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15326\/revisions\/15327"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}