{"id":14428,"date":"2017-06-07T20:45:43","date_gmt":"2017-06-07T18:45:43","guid":{"rendered":"https:\/\/xoandelugo.org\/?p=14428\/"},"modified":"2017-06-07T20:46:20","modified_gmt":"2017-06-07T18:46:20","slug":"a-utopia-politica-e-o-opio-dos-intelectuais-bruno-garschagen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xoandelugo.org\/cy\/a-utopia-politica-e-o-opio-dos-intelectuais-bruno-garschagen\/","title":{"rendered":"A UTOPIA POL\u00cdTICA \u00c9 O \u00d3PIO DOS INTELECTUAIS &#8211; Bruno Garschagen"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"background-color: rgba(255,255,255,0);background-position: center center;background-repeat: no-repeat;border-width: 0px 0px 0px 0px;border-color:#e2e2e2;border-style:solid;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start\" style=\"max-width:calc( 1200px + 0px );margin-left: calc(-0px \/ 2 );margin-right: calc(-0px \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><h1 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #428fc9;\">A UTOP\u00cdA POL\u00cdTICA \u00c9 O OPIO DOS INTELECTUAIS<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-2\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><h4 style=\"text-align: right;\"><em><span style=\"color: #428fc9;\">&#8211; Bruno Garschagen &#8211; \u00a0<\/span><\/em><\/h4>\n<\/div><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;width:100%;\"><div class=\"fusion-separator-border sep-single sep-solid\" style=\"border-color:#ffeb3b;border-top-width:1px;\"><\/div><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-0{width:100% !important;}.fusion-builder-column-0 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-1 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-text fusion-text-3\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A ideia moderna do intelectual engajado e fazendo parte de um grupo especificamente identificado nasceu na Fran\u00e7a na \u00e9poca do\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Caso_Dreyfus\">Caso Dreyfus<\/a>. Sem compor a estrutura de poder de sua sociedade, ele emitia suas opini\u00f5es supostamente em nome dos mais elevados princ\u00edpios \u00e9ticos e intelectuais, e n\u00e3o de acordo com as verdades oficiais, nos conta Eric Cahm em seu livro\u00a0<em><a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Dreyfus-Affair-French-Society-Politics\/dp\/0582276780\">The Dreyfus Affair in French Society and Politics<\/a><\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Durante o s\u00e9culo XIX, os intelectuais come\u00e7aram a entrar e a integrar as institui\u00e7\u00f5es que compunham a estrutura de poder exercendo as fun\u00e7\u00f5es de especialistas e professores. E foi uma parcela desses intelectuais que alimentou e difundiu diversos tipos de utopias apresentadas de forma estruturada, desestruturada ou simplesmente delirantes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A utopia n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade dos intelectuais, mas o pensamento pol\u00edtico ut\u00f3pico e a sua tentativa de realiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica s\u00e3o uma esp\u00e9cie de monop\u00f3lio natural de uma numerosa e influente parcela desse grupo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Suas ideias pol\u00edticas ut\u00f3picas estruturam desde a concep\u00e7\u00e3o do poder centralizado at\u00e9 a formula\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para submeter os membros da sociedade onde se pretende desenvolver um projeto de engenharia social com o objetivo de redimir ou aperfei\u00e7oar a condi\u00e7\u00e3o humana segundo uma pol\u00edtica de perfei\u00e7\u00e3o e rumo a um futuro radiante e livre dos sofrimentos, restri\u00e7\u00f5es e car\u00eancias do presente e do passado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Talvez o exemplo hist\u00f3rico mais grandioso da tentativa de implementa\u00e7\u00e3o de uma utopia pol\u00edtica baseada numa pol\u00edtica de perfei\u00e7\u00e3o tenha sido o per\u00edodo do Terror levado a cabo pelos Jacobinos durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. O estado foi estruturado de forma a permitir que uma determinada concep\u00e7\u00e3o de poder centralizado se desenvolvesse e se deslocasse de forma permanente para manter a revolu\u00e7\u00e3o em progresso e impedisse as eventuais rea\u00e7\u00f5es. Um poder m\u00f3vel \u00e9 sempre mais dif\u00edcil de se combater do que um poder est\u00e1tico, cuja manuten\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio acabam por ser seu calcanhar de Aquiles.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A utopia jacobina engoliu seus pr\u00f3ceres porque \u00e9 pr\u00f3prio do sistema se retroalimentar mediante a viola\u00e7\u00e3o ou elimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica tamb\u00e9m de seus agentes. E \u00e9 interessante notar, obviamente com a devida dist\u00e2ncia hist\u00f3rica e com o cotejo anal\u00edtico dos diversos relatos e estudos realizados, a grandiosa ingenuidade dos ut\u00f3picos ao ambicionar ter sob controle, desde o in\u00edcio, toda a complexa cadeia n\u00e3o-linear de eventos suscitados pelas profundas mudan\u00e7as morais, sociais, pol\u00edticas, econ\u00f4micas impingidas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Os raros l\u00edderes ut\u00f3picos que n\u00e3o foram tragados pela\u00a0<em>praxis<\/em>\u00a0do movimento deram sorte ou rapidamente perceberam como se movimentar nas entranhas da besta que ajudaram a criar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A ingenuidade de Robespierre, um intelectual e homem de a\u00e7\u00e3o, podia ser dimensionada pela sua ambi\u00e7\u00e3o desmedida. De advogado pacifista, passando por revolucion\u00e1rio inflamado at\u00e9 se auto coroar l\u00edder do Ser Supremo, Robespierre perdeu o controle bem antes de perder a cabe\u00e7a sob uma l\u00e2mina afiada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Por mais que se apresentem apenas como homens de ideias, e assim exp\u00f5em um insol\u00favel oximoro, uma parcela numerosa de intelectuais pol\u00edticos e econ\u00f4micos constroem mundos ut\u00f3picos na expectativa de v\u00ea-los institu\u00eddos e repete a utopia de Robespierre, mesmo que desconhe\u00e7am, ignorem ou rejeitem a heran\u00e7a parente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 O sofrimento, os males, as viol\u00eancias que integram a sua pol\u00edtica de perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o consequ\u00eancias n\u00e3o-intencionais de ideias virtuosas, mas a estrutura interna de um m\u00e9todo de a\u00e7\u00e3o embalado por uma teoria que muitas vezes \u00e9 apresentada como uma simp\u00e1tica solu\u00e7\u00e3o para problemas s\u00e9rios e reais. Solucionar tais problemas n\u00e3o \u00e9 a finalidade para esses intelectuais, de esquerda ou n\u00e3o, que buscam a implementa\u00e7\u00e3o da utopia para substituir os antigos pelos novos problemas, nunca admitidos como tais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 H\u00e1, de fato, uma opera\u00e7\u00e3o para deslocar completamente o bom senso e o senso comum, para soterrar a tradi\u00e7\u00e3o em nome de uma novidade progressista que conduzir\u00e1 a humanidade a um exc\u00eantrico para\u00edso terreno. \u00c9 flagrante a defini\u00e7\u00e3o de um infame sistema de castas baseado na superioridade moral autoatribu\u00edda. O novo sistema ut\u00f3pico progressista \u00e9 criado para operar sob o comando de uma elite superior composta por eles.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A t\u00e3o propalada ideia de igualdade \u00e9 completamente fraudulenta porque estabelece, desde j\u00e1, dois n\u00edveis distintos de seres humanos, um superior e outro inferior. Este deve reconhecer sua inferioridade e transferir, como queria Rousseau, sua vontade individual para a vontade coletiva, um estratagema para diluir o poder e os direitos do indiv\u00edduo de forma a redimensionar hiperbolicamente o poder centralizado da elite integrada por aqueles intelectuais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Os filhos de Rosseau tamb\u00e9m s\u00e3o netos de Robespierre; e a utopia pol\u00edtica, o \u00f3pio dos intelectuais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>\u00a0 O \u00f3pio dos intelectuais<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 O termo &#8220;o \u00f3pio dos intelectuais&#8221; evoca dois outros: a primeira, de autoria de Raymond Aron, de que o \u00f3pio dos intelectuais era o marxismo<a style=\"color: #808080;\" name=\"_ednref1\"><\/a><a style=\"color: #808080;\" href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>; a segunda, escrita por Karl Marx, dizia que a religi\u00e3o era o \u00f3pio do povo.<a style=\"color: #808080;\" href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Antes, por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio fazer um enquadramento te\u00f3rico. Os estudiosos do fen\u00f4meno n\u00e3o chegaram a um consenso para estabelecer um conceito definitivo para a utopia. As defini\u00e7\u00f5es utilizadas dependiam dos objetivos espec\u00edficos de cada estudo. concordavam, por\u00e9m, que qualquer conceito deveria conter pelo menos um destes tr\u00eas elementos: forma, conte\u00fado e fun\u00e7\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o que considero mais adequada \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o da utopia pol\u00edtica, que classifico como revolucion\u00e1ria, \u00e9 a de Ruth Levitas, para quem a melhor defini\u00e7\u00e3o deveria ser capaz de incorporar forma, conte\u00fado e fun\u00e7\u00e3o.<a style=\"color: #808080;\" href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre utopia pol\u00edtica revolucion\u00e1ria e utopia liter\u00e1ria: o fato de que a vers\u00e3o revolucion\u00e1ria da utopia pol\u00edtica n\u00e3o apenas descreve e prescreve uma sociedade ideal e perfeita, mas tem um projeto de poder para realiz\u00e1-la e empreende todos os esfor\u00e7os nesse sentido.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Uma utopia liter\u00e1ria n\u00e3o pretende nada al\u00e9m de ser uma descri\u00e7\u00e3o detalhada de uma sociedade ou de um mundo idealizado, e a sua forma e fun\u00e7\u00e3o praticamente definem um fim em si mesmos. Romances ut\u00f3picos podem ser usados por ut\u00f3picos revolucion\u00e1rios como base para suas ambi\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o foram realizados, muito embora possam ter sido idealizados, com tal finalidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Uma utopia pol\u00edtica revolucion\u00e1ria, por outro lado, elabora essa prescri\u00e7\u00e3o descritiva, que pode ser explicitamente detalhada ou estrategicamente pulverizada ou dilu\u00edda de forma a esconder seus reais objetivos, como um plano de institui\u00e7\u00e3o de um tipo de regime controlado por uma determinada elite que se apresenta como a \u00fanica habilitada a empreender aquele projeto de perfei\u00e7\u00e3o e a conduzir a sociedade rumo a um futuro ideal.<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\"> O fil\u00f3sofo h\u00fangaro Aurel Kolnai afirmou que a utopia era n\u00e3o apenas o perfeccionismo, mas, concomitantemente, a impostura do ideal de perfei\u00e7\u00e3o. Segundo Kolnai, o mundo ut\u00f3pico constitu\u00eda, na verdade, um campo simplificado de perfei\u00e7\u00e3o no qual a sociedade era um organismo harm\u00f4nico e os indiv\u00edduos eram classificados segundo uma hierarquia cientificamente organizada.<a style=\"color: #808080;\" href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>\u00a0Karl Marx, por exemplo, tentava esconder o car\u00e1ter ut\u00f3pico de seu pensamento pol\u00edtico sob um verniz cient\u00edfico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Intelectuais \u00e0 esquerda e \u00e0 direita manifestaram suas utopias pol\u00edticas ao longo da hist\u00f3ria de forma mais ou menos articulada e esquem\u00e1tica. Os bem-sucedidos foram justamente aqueles que, unidos a algum movimento ou grupo, conseguiram que suas ideias fossem usadas como programas de um projeto de poder.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Muitos desses intelectuais ut\u00f3picos sabiam exatamente quais seriam as consequ\u00eancias intencionais de suas ideias e assumiam plenamente a responsabilidade pelas consequ\u00eancias n\u00e3o-intencionais. Alguns poucos, mesmo que professassem algum tipo de boa-f\u00e9, preferiam ignorar os resultados daquilo que projetavam para toda uma sociedade em nome de um suposto bem comum, que desconsiderava os modos de vida e os indiv\u00edduos que a compunham.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Ambos combinavam um sentido de superioridade moral com o monop\u00f3lio da virtude. Estavam t\u00e3o inebriados com a pr\u00f3pria bondade e excitados com o sentimento de miss\u00e3o a ser cumprida que fariam qualquer coisa para realizar o projeto de perfei\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>\u00a0 O projeto de perfei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Tal projeto de perfei\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 alicer\u00e7ado numa utopia revolucion\u00e1ria que sustenta um projeto de constru\u00e7\u00e3o futura de uma sociedade ideal e perfeita. Os ut\u00f3picos consideram leg\u00edtimo, sob as perspectivas pol\u00edtica e moral, utilizar todos os meios e recursos necess\u00e1rios, incluindo a viol\u00eancia, para realizar este projeto. S\u00f3 assim, acreditam, ser\u00e1 poss\u00edvel atingir a plenitude da felicidade, do bem-estar, do progresso, da satisfa\u00e7\u00e3o dos desejos, e o fim de todos os sofrimentos e necessidades insatisfeitas, ou seja, um estado ideal de perfei\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A cren\u00e7a de que a pol\u00edtica \u00e9 o instrumento mais adequado para perseguir o est\u00e1gio ideal de perfei\u00e7\u00e3o, e assim com poder para redimir a natureza humana de suas falhas que inviabilizariam o projeto, parte da hip\u00f3tese ut\u00f3pica segundo a qual todas as quest\u00f5es genu\u00ednas (como a busca pela sociedade perfeita do futuro) t\u00eam apenas uma resposta correta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Isaiah Berlin observou que o argumento ut\u00f3pico se desenvolvia no sentido de que a inexist\u00eancia de uma \u00fanica resposta correta significaria que todas as quest\u00f5es apresentadas n\u00e3o eram genu\u00ednas. De forma complementar, era fundamental que todos os fundamentos da resposta correta fossem verdadeiros porque todas as outras respostas poss\u00edveis se baseavam numa falsidade.<a style=\"color: #808080;\" href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Essa estrutura de pensamento permite converter a utopia pol\u00edtica em um modelo te\u00f3rico ficticiamente perfeito que n\u00e3o admite contesta\u00e7\u00e3o porque qualquer cr\u00edtica aos seus fundamentos \u00e9 refutada com a acusa\u00e7\u00e3o de que o cr\u00edtico n\u00e3o formulou uma quest\u00e3o genu\u00edna e, por isso, n\u00e3o alcan\u00e7aria a \u00fanica resposta correta existente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A defesa da ideia n\u00e3o se d\u00e1 mediante a for\u00e7a intr\u00ednseca dos seus fundamentos, mas por uma forma peculiar de reacionarismo, que tenta destruir seus cr\u00edticos mediante a desqualifica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos argumentos contr\u00e1rios, n\u00e3o pelo que apresentam, mas sim pelo que n\u00e3o exp\u00f5em, em resumo, pela acusa\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia de uma quest\u00e3o genu\u00edna.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A ideia do tempo na utopia pol\u00edtica \u00e9 bastante peculiar e importante. Quando menciono que o projeto de perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 um projeto de futuro \u00e9 porque a promessa faz parte da estrutura ret\u00f3rica e da necessidade de manter o objetivo final em progresso, e n\u00e3o efetivamente sendo realizado, mesmo que gradualmente. Ao ver a si mesma como a realiza\u00e7\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o, a utopia pol\u00edtica funciona como se sua exist\u00eancia como ideia prescindisse de uma realiza\u00e7\u00e3o material que efetivamente trouxesse a felicidade aos indiv\u00edduos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Realizar o projeto extinguiria a utopia e, por sua vez, aboliria aquele tipo de poder extremamente concentrado da elite pol\u00edtica revolucion\u00e1ria. Ou seja, realizar a utopia significaria o seu pr\u00f3prio fim e, por consequ\u00eancia, o fim dos seus art\u00edfices. E n\u00e3o podemos esperar que os agentes da utopia atuem de forma consciente para extinguir aquilo que lhes garante e preserva a exist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 A perman\u00eancia no tempo da promessa ut\u00f3pica permite que o poder central tenha controle sobre os acontecimentos, direcionando-os, e, principalmente, se mantenha no comando de todos os procedimentos e processos desse\u00a0<em>work in progress<\/em>. \u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Em sua tese de doutorado sobre a pol\u00edtica de perfei\u00e7\u00e3o, na qual estuda Isaiah Berlin e Edmund Burke, o professor e colunista da Folha de S. Paulo, Jo\u00e3o Pereira Coutinho, enquadra a utopia como uma realidade est\u00e1tica que prescinde do futuro porque &#8220;ela pr\u00f3pria, na sua intoc\u00e1vel perfei\u00e7\u00e3o, concilia o passado, o presente e o futuro. A utopia n\u00e3o deseja o melhor poss\u00edvel porque ela pr\u00f3pria \u00e9, desde logo, o\u00a0<em>melhor<\/em>\u00a0e o\u00a0<em>poss\u00edvel<\/em>&#8220;.<a style=\"color: #808080;\" href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\">\u00a0 Esse tipo de mentalidade se retroalimenta na sua n\u00e3o-realiza\u00e7\u00e3o, o que estabelece, finalmente, um paradoxo extremo: a ret\u00f3rica pol\u00edtica ut\u00f3pica \u00e9 fundamentada na transforma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e efetiva do mundo de forma a maximizar e distribuir os benef\u00edcios e privil\u00e9gios a cada um dos indiv\u00edduos, mas a sua realiza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, converteria a utopia em qualquer outra coisa que n\u00e3o ela pr\u00f3pria, o que faria ruir os fundamentos estruturais intelectuais e expor aquilo o que originariamente \u00e9: um poderoso instrumento de ilus\u00e3o, fraude e falsifica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/span><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-1{width:100% !important;}.fusion-builder-column-1 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-2 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\" style=\"background-position:left top;background-repeat:no-repeat;-webkit-background-size:cover;-moz-background-size:cover;-o-background-size:cover;background-size:cover;padding: 0px 0px 0px 0px;\"><div class=\"fusion-separator fusion-full-width-sep\" style=\"align-self: center;margin-left: auto;margin-right: auto;width:100%;\"><div class=\"fusion-separator-border sep-single sep-solid\" style=\"border-color:#ffeb3b;border-top-width:1px;\"><\/div><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-4\" style=\"transform:translate3d(0,0,0);\"><p><span style=\"color: #999999;\"><strong><a style=\"color: #999999;\" href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a><\/strong> Raymond Aron. &#8220;O \u00d3pio dos Intelectuais&#8221;. Bras\u00edlia: Editora da UnB, 1980.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><strong><a style=\"color: #999999;\" href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a><\/strong> Karl Marx. Introduction in &#8220;A Contribution to the Critique of Hegel&#8217;s Philosophy of Right&#8221;. Publicado no jornal Deutsch-Franz\u00f6sische Jahrb\u00fccher em 7 de fevereiro de 1844.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><strong><a style=\"color: #999999;\" href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a><\/strong> Ruth Levitas. &#8220;The Concept of Utopia&#8221;, 179.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><strong><a style=\"color: #999999;\" href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a><\/strong> Aurel Kolnai. &#8220;Privilege and Liberty and Other Essays in Political Philosophy&#8221;, 124.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><strong><a style=\"color: #999999;\" href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> <\/strong>Isaiah Berlin, &#8220;The Decline of Utopian Ideas in the West&#8221;, in The Crooked Timber of Humanity, 24.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><strong><a style=\"color: #999999;\" href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a><\/strong> Jo\u00e3o Pereira Coutinho, &#8220;Pol\u00edtica e Perfei\u00e7\u00e3o: Um Estudo sobre o Pluralismo de Edmund Burke e Isaiah Berlin&#8221;, (Tese de Doutoramento, Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, 2008), 272.<\/span><\/p>\n<\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;margin-top : 0px;margin-bottom : 20px;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {padding-top : 0px !important;padding-right : 0px !important;margin-right : 0px;padding-bottom : 0px !important;padding-left : 0px !important;margin-left : 0px;}@media only screen and (max-width:1024px) {.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}@media only screen and (max-width:640px) {.fusion-body .fusion-builder-column-2{width:100% !important;}.fusion-builder-column-2 > .fusion-column-wrapper {margin-right : 0px;margin-left : 0px;}}<\/style><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-3 fusion_builder_column_1_1 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